A Inocência
A inocência não é aquela velha cozinheira de pele negra,
que habitava uma das muitas histórias que eu li durante a vida; a inocência a
que me refiro é aquela outra maravilha que habita outras almas simples, onde as
maldades do mundo humano ainda não fizeram ninho.
Estava eu por
aqui, escrevendo um texto que tem por título “Exemplos”, quando fui interrompido pelo neto mais novo, André, um menino muito vivo, inteligente e
estudioso, que aos quase oito anos de idade, é dotado de uma adorável inocência.
Ele me
interrompe, para me presentear com uma nota de cem reais não original, que tem
no verso uma propaganda qualquer.
Entrei na
brincadeira, coloquei a nota na minha agenda, agradeci com um beijo, com um
abraço apertado e ele saiu daqui feliz da vida, por ter engabelado o vovô.
Ao passar pela
cozinha, ele conta a façanha para a mãe que, com certeza ouvira tudo e acaba
dando o troco a ele:
-Meu filho, seu
avô acreditou e amanhã é capaz de ir até a vendinha fazer compras com o
dinheiro falso e vai ser preso.
O coitado voltou
mais veloz do que da outra vez e queria pegar a nota. Eu barrava o acesso à
agenda e ele foi ficando nervoso, insistente e acabou contando a verdade:
-Vovô, aquela
nota é falsa...
Peguei a nota,
examinei, olhei o avesso e, aí, então dei mostras de ter percebido o logro.
-Ah, você estava
enganando o vovô, não é?
Devolvi-lhe a
nota e ele saiu todo contente, aliviado por ter livrado o vovô da cadeia.
Carlos Gama.
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